... onde histórias se conectam e constroem o futuro...
Obras de Podalírio Serra Otto, apresentadas por Marcelo Pacheco em 2026...
É uma honra ajudar a dar voz a essa história tão potente. A trajetória de Podalírio Serra Otto é a prova viva de que a poesia não nasce da caneta, mas do olhar e da sensibilidade. Ele não precisou dominar as letras para dominar a arte de observar o mundo e traduzi-lo em versos.
Podalírio Serra Otto não foi um homem de letras, mas foi, essencialmente, um homem de palavras. Em um mundo que muitas vezes confunde instrução formal com sabedoria, Podalírio rompeu a barreira do analfabetismo para se tornar um dos primeiros e mais autênticos cronistas da alma caraense. Sua obra não foi escrita com tinta, mas moldada na memória e no ritmo do cotidiano, provando que a poesia é um estado de espírito, antes de ser um registro no papel.
A falta de alfabetização, que para muitos seria um silêncio, para Podalírio foi um convite à escuta. Ele guardava no peito o que a mão não podia grafar. Suas rimas, construídas na oralidade, carregam a métrica natural do campo, o som das águas de Caraá e o pulsar de uma vida dedicada ao trabalho e à observação.
Apresentar esta coleção é celebrar a identidade de um povo. As obras de Podalírio funcionam como um arquivo vivo de uma época. A poesia de Podalírio é a prova de que o coração não precisa de cartilha para saber ditar a beleza.
Este versos que hoje se apresentam sob o título "Vida e Obra de um Autor Não Alfabetizado" é mais do que uma coleção de poesias; é um ato de justiça histórica e um abraço na memória de Caraá. Que cada verso aqui registrado sirva de inspiração para lembrarmos que o talento, quando verdadeiro, floresce em qualquer solo.
Poesia de Podalírio Serra Otto em memória...
Nós íamos para a granja
Pra ganhar nossos vinténs,
De carreta até Osório
Pra depois pegar o trem.
Quando a noite nos chegava
Tudo era festa e prazer:
Uns pousavam no Mazangui,
Outros lá no Celesti.
No outro dia, o apito!
O trem seguia o caminho,
Em direção lá da Vila,
A Vila dos Passinhos.
Tinha novo, tinha velho,
Povo de toda nação,
Lá no tal do Rancho Velho
Era a segunda estação.
O trem soltava faísca,
Muita gente passava mal,
E a quarta parada era
No centro de Palmares, afinal.
Ali tinha o movimento,
Porto de embarcação,
Por onde vinha pra Osório
A nossa alimentação.
Cada um tinha um destino
Naquela lida pesada,
Uns subiam, uns desciam,
Pra seguir pela jornada.
Pra ganhar o pão bendito
Não se escolhia o chão:
Uns iam seguindo a pé,
Outros de carroção.
Tinha quem ficava meses,
Outros só sessenta dias,
Mas no fim do compromisso
Toda alma se alegrava:
Era a volta pela trilha
Pra rever quem se amava.
No trem tinha duas classes:
O rico ia na primeira,
E o pobre, no seu lugar,
Vinha sempre na segunda.
Meia-noite em Osório,
Com cansaço, mas com fé,
Pois faltava a travessia
Que era feita toda a pé.
Pela estrada vinha o bando
Gritando em harmonia,
Chegávamos na capela
Quando o sol já clareava o dia.
Dali pra frente, meu povo,
Ninguém mais queria dormir:
Era festa na família
Por ver a gente surgir.
Tudo isso que eu conto
É a pura realidade,
Não pensem que estou mentindo,
Digo apenas a verdade.
Vi firmas de grandes homens
Que o tempo já consumiu;
Hoje vivem na cidade
Onde a fome lhes feriu.
Quem não conhece o asfalto
Pensa que é só progresso,
Se encanta com o movimento
E se perde no sucesso.
Mas eu paro por aqui,
Fechando minha memória:
Pra contar o que eu conto
Tem que ter muita história.
Deixo aqui minha lembrança
Escrita com o coração,
Pra quando eu for morar com Deus
Nesta última estação.
Poesia de Podalírio Serra Otto em memória...
Estes versos que agora eu faço
São pra um velho muito metido,
Meio curto das vistas, eu acho,
Mas muito são dos ouvidos.
Ninguém pode com esse velho,
Pois ele é muito atrevido;
Sabe da vida de todos,
É ligeiro e corrompido:
Quando eu penso que estou indo,
Ele já está é vindo!
Pra aguentar esse sujeito,
Só o pai, se fosse vivo,
Pois o velho é peça rara,
É esperto e é ativo.
Eu não vou dizer o nome,
Pois ele é muito conhecido.
É amigo da Rosarinha,
Da Marocha é o preferido,
Por sinal um homem bom,
Por todos muito querido.
Ele é magro, não é gordo,
É curto, não é comprido.
Pesa uns cinquenta quilos,
Bate em cima do meu umbigo.
Isso é só um cálculo meu,
Pois não medi o meu amigo;
Enquanto a gente espicha,
O velho morre encolhido!
Vou dar logo o endereço
Pra saber onde ele mora:
É lá em cima do morro,
Junto com sua senhora,
Mais um genro e uma filha,
Mais um filho e uma nora.
Tem uma turma de netos,
Crianças que ele adora,
E lá na parada do ônibus,
Sempre que ele vai pra fora...
Poesia de Podalírio Serra Otto em memória...
Há tempo que ando doente,
Minha vida anda enrolada,
Faz um ano que eu não durmo
Por uma pulga desgraçada.
Vou criar os meus cachorros
Pra fazer essa caçada!
Pra matar esse bicho ruim
Tem que atirar na direção;
O bicho vem dando saltos
Da coberta pro colchão.
No claro ela não para,
Só quer a escuridão!
Vou reunir os companheiros
Pra enfrentar o bicho inteiro,
Pois a danada está morando Embaixo do travesseiro.
Não é um bicho pequeno:
É do tamanho de um terneiro!
Esse bicho apareceu,
Eu não sei de onde é;
Já me picou muitas vezes,
Vai picar minha mulher.
O bicho pula tão alto
Que ninguém alcança o pé!
Se pica a gente crescida,
Quem dirá uma criança?
Pra dar fim nessa agonia
Fui buscar gente de confiança.
O bicho saiu pulando
E não deu nem esperança!
O bicho ganhou o mato,
Capoeira afora ele vai...
Eu quero achar a toca
Onde essa praga cai.
Vou parando por aqui,
Senão a história não sai!
Se eu matar esse bicho
Vai ser uma grande vitória!
Moro em cima do morro,
Lá pros lados da Serra Torta.
O dia que eu morrer,
O Brasil fecha as porta!
Resumo da temática da da exposição.......